A Estátua
Da Rua Le
Monde
Müller Barone – Curitiba/PR
Ninguém
sabe o motivo
da rua ter
sido batizada
daquela forma.
Alguns arriscam
que foi um
surto do prefeito
da época para
homenagear
todos os seres
vivos e, de
quebra, mostrar
que sabia
francês, o
que não era
verdade.
E
foi lá, sentada
num banco
da Rua Le
Monde que
tudo aconteceu
para ela.
Linda,
quase escultural,
inteligente.
Sentada olhando
o movimento,
pensando em
tudo que tinha
vivido até
ali, viu o
quanto tudo
tinha sido
um constante
dizer “sim”
para tudo
e todos. De
susto, entrou
num
espécie
de coma. E
ficou ali.
Vieram
médicos e
diagnosticaram
simplesmente
crise profunda
de ausência.
Vieram curiosos
que a tocavam
ressabiados
com a ponta
dos dedos.
Ela ouvia
tudo e não
impedia nada.
Deixaram-na sentada no banco, algo que fomentou o turismo da
pequena cidade,
de renda per
capita insignificante
e PIB ínfimo.
Passaram-se
os anos e
tudo ela viu,
ouviu e nada
fez,
imersa em
sua inércia,
sua paralisia,
seu susto
diante da
mesmice do
mundo, da
sua vida,
da vida de
todas.
Alguns
homens se
masturbaram
por ela e
a melecaram.
Casais livres
ou adúlteros
transaram
escondidos
por ela. Garotos
de estilingue
fizeram mira
em seus olhos
e quebraram
seu nariz
como os canhões
alemães fizeram
à outra Esfinge.
Seu
corpo foi
petrificando.
Pombos pousavam
e cagavam
sobre ela.
Senhoras penduravam
bolsas e sacolas
em sua mão
direita que
ficou posta
sobre o joelho,
cruzada sobre
a esquerda,
enquanto falavam
dela e de
quanto a cidade
aumentou sua
renda com
a história
da estátua
da rua
Le Monde.
Bêbado
vomitaram
sobre seu
colo; viciados
a amaram;
vândalos riscaram
seus nomes
em suas coxas;
maridos violentos
a espancaram
pensando nas
mulheres;
pichadores
deixaram seus
riscos na
testa e nos
cabelos. Romeiros
deixaram flores;
há
os que até
hoje dizem
que alcançaram
graças.
Com
o tempo ela
enrijeceu
e começou
a virar bronze,
exceto pelas
roupas. O
vestido puiu
até consumir-se,
ficando apenas
as “roupas
de baixo”
e o sapato
de salto agulha,
já sem cor.
As senhoras
da missa das
sete começaram
a se indignar
e mudaram
o caminho
para ir à
igreja. O
vigário cobrava
nova
vestes
da prefeitura;
ativistas
e ONGs protestavam,
alegando que
era crime
contra o patrimônio
intervir com
aquilo que
a natureza
fizera; feministas
ameaçaram
queimar as
novas roupas,
caso fossem
colocadas;
movimentos
GLS falaram
em repressão
à nudez; a
liga das senhoras
falava em
Sodoma e a
direita evangélica
em Gomorra. Poucos ainda
lembravam
sua história
e seu nome,
era preciso
ler a placa.
O
tempo levou
as demais
vestes, os
protestos
continuaram.
Mais
alguns anos
e alguém notou
uma ruga no
rosto. Chamaram
especialistas
em reconstituição
de obras de
arte. Mais
protestos.
As senhoras,
agora, pensavam
em cobri-la
com o manto
de Nossa Senhora,
evangélicos
se opuseram.
E vieram mais
rugas. E os
turistas começaram
a fotografá-la
de longe porque
a velhice
em bronze
era horrorosa.
O movimento
da rua caiu.
Comerciantes
queriam reformas
ou a retirada.
A cidade já
havia crescido
e ficado famosa,
os negócios
andavam bem.
Um
dia, o que
pareceu ser
uma lágrima
brotou de
um dos olhos
da estátua.
Ninguém deu
a
mínima, achou-se
que era titica
de pombo ou
água. Durante
a madrugada,
uma bruma
misteriosa
desceu do
céu e envolveu
a estátua.
Ao amanhecer,
ela havia
virado areia,
um vento forte
desfez tudo
e carregou
para longe
o mais minúsculo
grão.
Ninguém
mais lembrava
seu nome ou
quando tudo
começou.
Anos
mais tarde,
um homem sentou-se
no banco e
ficou o olhando
o movimento
e pensando
em tudo o
que vivera
até ali...