:. CONTO 01

A Estátua Da Rua Le Monde

 

Müller Barone – Curitiba/PR

 

Ninguém sabe o motivo da rua ter sido batizada daquela forma. Alguns arriscam que foi um surto do prefeito da época para homenagear todos os seres vivos e, de quebra, mostrar que sabia francês, o que não era verdade.

E foi lá, sentada num banco da Rua Le Monde que tudo aconteceu para ela.

Linda, quase escultural, inteligente. Sentada olhando o movimento, pensando em tudo que tinha vivido até ali, viu o quanto tudo tinha sido um constante dizer “sim” para tudo e todos. De susto, entrou num espécie de coma. E ficou ali.

Vieram médicos e diagnosticaram simplesmente crise profunda de ausência. Vieram curiosos que a tocavam ressabiados com a ponta dos dedos. Ela ouvia tudo e não impedia nada. Deixaram-na sentada no banco, algo que fomentou o turismo da pequena cidade, de renda per capita insignificante e PIB ínfimo.

Passaram-se os anos e tudo ela viu, ouviu e nada fez, imersa em sua inércia, sua paralisia, seu susto diante da mesmice do mundo, da sua vida, da vida de todas.

Alguns homens se masturbaram por ela e a melecaram. Casais livres ou adúlteros transaram escondidos por ela. Garotos de estilingue fizeram mira em seus olhos e quebraram seu nariz como os canhões alemães fizeram à outra Esfinge.

Seu corpo foi petrificando. Pombos pousavam e cagavam sobre ela. Senhoras penduravam bolsas e sacolas em sua mão direita que ficou posta sobre o joelho, cruzada sobre a esquerda, enquanto falavam dela e de quanto a cidade aumentou sua renda com a história da estátua da rua Le Monde.

Bêbado vomitaram sobre seu colo; viciados a amaram; vândalos riscaram seus nomes em suas coxas; maridos violentos a espancaram pensando nas mulheres; pichadores deixaram seus riscos na testa e nos cabelos. Romeiros deixaram flores;  há os que até hoje dizem que alcançaram graças.

Com o tempo ela enrijeceu e começou a virar bronze, exceto pelas roupas. O vestido puiu até consumir-se, ficando apenas as “roupas de baixo” e o sapato de salto agulha, já sem cor. As senhoras da missa das sete começaram a se indignar e mudaram o caminho para ir à igreja. O vigário cobrava nova vestes da prefeitura; ativistas e ONGs protestavam, alegando que era crime contra o patrimônio intervir com aquilo que a natureza fizera; feministas ameaçaram queimar as novas roupas, caso fossem colocadas; movimentos GLS falaram em repressão à nudez; a liga das senhoras falava em Sodoma e a direita evangélica em Gomorra. Poucos ainda lembravam sua história e seu nome, era preciso ler a placa.

O tempo levou as demais vestes, os protestos continuaram. Mais alguns anos e alguém notou uma ruga no rosto. Chamaram especialistas em reconstituição de obras de arte. Mais protestos. As senhoras, agora, pensavam em cobri-la com o manto de Nossa Senhora, evangélicos se opuseram. E vieram mais rugas. E os turistas começaram a fotografá-la de longe porque a velhice em bronze era horrorosa. O movimento da rua caiu. Comerciantes queriam reformas ou a retirada. A cidade já havia crescido e ficado famosa, os negócios andavam bem.

Um dia, o que pareceu ser uma lágrima brotou de um dos olhos da estátua. Ninguém deu a mínima, achou-se que era titica de pombo ou água. Durante a madrugada, uma bruma misteriosa desceu do céu e envolveu a estátua. Ao amanhecer, ela havia virado areia, um vento forte desfez tudo e carregou para longe o mais minúsculo grão.

Ninguém mais lembrava seu nome ou quando tudo começou.

Anos mais tarde, um homem sentou-se no banco e ficou o olhando o movimento e pensando em tudo o que vivera até ali...

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