O Monstro
Do Armário
Müller Barone – Curitiba/PR
“Om Namah Shivaaya
Shivaaya namaha, Shivaaya
namaha om
Shivaaya namaha,
namaha
Shivaaya.”
A
estrofe faz
parte de um
canto de adoração
a Shiva
e, segundo
o encarte
do cd, significa
“eu me curvo
diante de
Shiva.”
É a primeira
faixa do cd
que ouvi em
Porto Alegre,
na última
vez que estive
lá. Engata
com o monstro
do armário?
Não, mas quando
ela estava
tocando, notei
que havia
deixado aberta
a porta do
guarda-roupas
e, acreditem,
a música travou
como se houvesse
um risco,
no exato instante
em que pensei
ter visto
uma sombra
se mexer dentro
do armário.
Desde
os cinco anos
de idade,
tudo em mim
foi construído
à base de
observações.
Olhava os
outros e fazia
de acordo
ou ao contrário,
conforme ia
julgando como
certo ou errado.
Quase deixei
meus sentimentos
presos, guardados
nas prateleiras,
sem uso, vivendo
em conserva
de naftalinas
adequadas
ao coração.
Um após outro
fui “detonando”
os monstros
que surgiam
a minha frente,
como num game.
Meio
século jogando
e você acha
que já “moeu”
com tudo,
acredita que
já conhece
as armadilhas
todas do jogo,
já tem todas
as chaves,
decifrou todos
os enigmas
e não corre
mais riscos,
não há mais
monstros que
você não conheça,
game over.
Mas sempre
há uma fase
escondida,
bem mais difícil,
o verdadeiro
“último chefe”,
talvez intransponível.
A
fase escondida
se abriu há
um ano,
é longa
e mais difícil
que as outras.
As outras
eram difíceis,
mas a lógica
resolvia todos
os obstáculos.
Olhar, parar,
pensar, agir.
Aquele mutante
só morre com
um tiro entre
os olhos.
Lógica. Na
fase oculta,
que é escura,
a lógica é
coadjuvante
e não funciona
sozinha.
A
porta do armário
se abriu e
os monstros
começaram
a olhar para
fora, sondar
o ambiente
e pensar em
sair da prisão
em que passaram
quase meio
século. Olhos
escuros em
globos brancos
demais espreitavam
o
exterior indefinidos
entre a fúria,
a surpresa
e a desolação.
Juntei minhas
armas e esperei.
Era o nível
mais escuro,
até então,
daquela fase.
Um
a um eles
foram saindo.
Na escuridão
do quarto,
sentiram-se
a vontade
para emitirem
sons, em princípio
indefinidos,
e para andarem
de um lado
para outro.
Eu ainda não
os via. O
cd continuava
travado.
Finalmente
comecei a
vê-los, dos
pés à cabeça.
Alguns pingavam
sangue, outros
estavam cobertos
de gosma,
outros tinham
marcas, uns
mancavam,
outros pareciam
ausentes.
De repente,
o susto: todos
eram
eu mesmo.
Mancando,
sangrando,
babando, acorrentado,
sorrindo com
sarcasmo,
odiando, amando,
todos eram
eu. Como se
atira em si
mesmo?
Um
deles, encharcado
de suor, olho
direto para
mim e vem.
Era o chefe.
Passava por
todos eles
antes ou partia
para cima
dele e resolvia
tudo de uma
vez. Na
fase oculta
a lógica é
coadjuvante.
No momento
em que usei
o cérebro
levei o primeiro
golpe e “perdi
energia”.
Todos
vieram de
uma só vez,
porque eu
estava caído.
Tentei empurrá-los
para dentro
do armário
outra vez,
mas o primeiro
já emperrou
na porta.
Tinha se avolumado
e não passava
mais por ela,
não podia
voltar de
onde esteve
aprisionado
até aquela
noite.
Cada
um deles,
de acordo
com suas habilidades,
foi desferindo
golpes. Meu
nível de energia
apontava em
clarões “warning”. Certo de que não passaria por eles, tentei um último tiro, um raciocínio, lógica. Lembro que a fúria deu
o golpe de
misericórdia.
De
repente, todos
urram voltados
para cima.
Caem suas
correntes,
seus suores,
gosma, sangue,
as feridas
se vão, seus
corpos se
refazem e
seus olhos
começam a
brilhar com
mais intensidade,
até que todos
os corpos
se transformam
em luz.
Passam
todos a andar
em minha direção.
Sinto algo
no peito,
uma pressão
como se estivesse
sendo aberto,
esterno separado
ao meio, coração
exposto. Em
forma de luz,
todos entram
em mim, como
invasores
de corpos.
Agoniado,
dou uma olhada,
antes de cair,
para o cd
player, após
o último entrar.
A
música recomeça:
Shivaaya namaha, namaha Shivaaya.” Havia passado
um único segundo
desde que
travou até
o momento
em que último
monstro entrou
em mim.
Olhei
para o lado
e notei que
a porta do
armário estava
fechada. Respirei
fundo, fechei
os olhos e
dormi.